De Amélia a Dalila: A mulher na MPB
Nesta reportagem especial da UMA, você descobre como a mulher foi retratada em nossa música popular, e ainda conhece mulheres poderosas que revolucionaram a história da canção brasileira Por Daniel Martins*
Garota papo firme Apesar desse quadro machista predominante, mudanças já apareciam no horizonte da sociedade (e da música) brasileira na segunda metade do século XX. A satisfação pessoal feminina finalmente começava a surgir em primeiro plano.
Era o fim da chamada mulher governanta, como definiu Getúlio Macedo em 1964: “Amigo, essa mulher mal-amada / Ela é a sua esposa / Não é a sua empregada”. Era chegada a hora e a vez de uma nova mulher, muito bem-descrita em 1966 na canção da jovem guarda, É Papo Firme, de Renato Corrêa e Donaldson Gonçalves: “Essa garota é papo firme, é papo firme, é papo firme / Ela é mesmo avançada / E só dirige em disparada / Gosta de tudo que eu falo / Gosta de gíria e muito embalo / Ela adora uma praia / E só anda de minissaia / Está por dentro de tudo / Só namora se o cara é cabeludo”.
Garotinhas que preferiram pegar carona nos carros dos cabeludos em vez de ficar debruçadas na janela, esperando o príncipe encantado passar, fizeram dos anos 60 tempos de maior igualdade de direitos e oportunidades entre os sexos. Claro que isso tudo foi reflexo das transformações e contestações políticas e sociais, que concederam maior abertura às reivindicações feministas.
S.O.S. MULHER
E assim chegaram os anos 70, com uma mulher bem diferente da Amélia de tempos atrás, como diz a canção, Você Mulher, de Ivan Lins e Ronaldo Monteiro: “Não lhe quero em casa, prisioneira / De fogão, tesoura e enceradeira / Com mau-trato, feia e companheira / Não está longe a sua independência / Vida crua pede providência / Mas me lembra uma escravidão, peça abolição!”.
A tão sonhada liberdade feminina passou, como que por milagre, a ser defendida pelos próprios homens ou, pelo menos, por alguns deles, já que o mundo não é perfeito. Afinal, não havia mais como ignorar a força das mulheres. Programas televisivos como Malu Mulher e TV Mulher contribuíram de forma decisiva para a afirmação da igualdade entre os dois sexos.
Assim, a mulher conquistou o direito de ser igual ao homem, inclusive no campo sexual. Sair com outros homens? Claro, até mesmo com mulheres, por que não? O baiano Carlinhos Brown mostrou o quanto isso podia ser natural ao dizer que “a namorada tem namorada”. E, assim, a música popular segue acompanhando de perto e refletindo as transformações nesse complexo jogo, ou quase guerra, entre homens e mulheres.
MULHERES QUE A GENTE QUIS OUVIR
No processo de mudança radical da visão sobre o mundo feminino na MPB, algumas mulheres tiveram papel fundamental. A UMA apresenta aqui cinco mulheres decisivas para essa transformação.
CLARA
Clara Francisca Gonçalves Pinheiro. Isso mesmo, sem o Nunes. Foi assim que nasceu no interior de Minas Gerais a filha de um violeiro e cantador de folias-de-reis que se tornou a primeira cantora brasileira a vender mais de 100 mil cópias, derrubando o mito de que mulher não vende discos, e colocando um pouco mais de “tempero” na já efervescente música popular brasileira.
Apesar de interpretar os mais variados gêneros, foi no samba que Clara Nunes se encontrou e mostrou do que era capaz. Memoráveis são suas interpretações para Conto de Areia, Canto das Três Raças e O Mar Serenou. Além de cantora e compositora, Clara era também uma pesquisadora interessada na música popular brasileira e em seus variados ritmos A África também foi motivo de interesse por Clara, tornando-se tema recorrente em sua obra. |
|

|
RITA
Quando, em 1967, Os Mutantes entraram em cena para acompanhar Gilberto Gil no 2º Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, o Brasil conheceu uma jovem paulistana chamada Rita Lee.
Mal sabíamos do que aquela menina seria capaz.Filha legítima do tropicalismo, Rita superou a prisão durante a ditadura (e ela estava grávida de três meses!) para ressurgir como uma importante compositora que passeia pelos mais diferentes estilos, desbravando sonoridades ainda inéditas.
Suas composições foram retratos quase perfeitos das transformações que ocorriam no Brasil, principalmente no que diz respeito à nova mulher brasileira, sendo, por exemplo, uma das responsáveis por apresentar a mulher perigo |
<< Anterior | 1 | 2 | 3 | Próxima >> |